Mais perto do coração por Graziela Gilioli

No século IV a.C. pensávamos que a Terra era o centro do universo. Aristóteles, o filósofo grego que foi aluno de Platão, defendia a teoria do geocentrismo, onde a Terra é soberana, e os seus súditos são todos os outros astros, incluindo o sol.

Em Veneza, no século XVII, Galilei Galileu apresentou a teoria do heliocentrismo, onde o sol é o centro do universo. Galileu explicou para o mundo que a Terra girava ao redor do sol, e não o contrário, como se acreditou durante tanto tempo. A descoberta de Galileu foi um marco importantíissimo para a história da humanidade e causou um grande alvoroço no meio científico da época.  Imaginem o quanto foi revelador saber que o nosso planeta não era o protagonista da Via Láctea, nem nunca foi. Hoje convivemos bem tranquilamente com o fato de sabermos que nosso planeta gira sobre seu próprio eixo a uma velocidade de mais ou menos 1.700 quilômetros por hora  e que o movimento da Terra ao redor do sol acontece a uma velocidade de 107.000 quilômetros por hora.

Para nós do século XXI isso não é novidade no contexto da ciência mas no pequeno espaço da nossa vida cotidiana há quem ainda pense que somos o centro do universo. Ainda nos atrapalhamos com os assuntos do ego e da alma, e muitas vezes vivemos nossa vida com nossos corações mal compreendidos, e cheios de desejos muito pouco contemplados. Talvez devêssemos educar nossos corações e nossas mentes para nos libertarmos das armadilhas do ego.

Educar o coração é como educar o olhar para sermos capazes de apreciar o belo, numa verdadeira oportunidade de nos apropriarmos da nossa condição humana. Vivemos num mundo tão controverso e complexo que às vezes nos deixamos persuadir pela falácia da eficiência e da urgência da vida contemporânea, com suas agitações um tanto forçadas e que alimentam egos simplórios e famintos.

De que adianta vivermos ocupados e atarefados mas sem atenção ao coração que habita no nosso peito? Talvez apenas os corações humanos possam compreender a sabedoria dos versos do I Ching, ou sentir a compaixão da Pietà de Michelangelo ou entender a beleza da obra de Franky Gehry ou admirar a grandeza da querida Malala. Para nos apropriarmos da nossa qualidade de sermos humanos temos de colocar o coração à frente de tudo, como um guia que nos mostra o caminho para a compreensão do mundo.

O conhecimento humano é extraordinário em muitos sentidos. Descobrimos planetas e luas, voamos a 37.000 metros de altitude, e até fotografamos Marte. Mas quanta dificuldade para derrubarmos dogmas seculares que ainda existem e de nada nos servem! Quão pouco usamos nossos corações para transformarmos o mundo a nossa volta, cheio de desigualdades tristíssimas e injustiças avassaladoras!

Temos ainda um longo caminho no sentido de preparar nossos corações para sairmos do nosso universo particular, tão minúsculo e tão sem importancia frente às grandezas da vida. Quando conseguirmos olhar para além de nós encontraremos os bons sentimentos que existem à nossa volta. Vez por outra os bons sentimentos estão um tanto adormecidos por força da nossa distração em não cuidarmos do coração. Mas sempre é tempo para lembrarmos que ele existe e que é ele o nosso verdadeiro guia.

Em um coração forte, que aceita as incertezas e as surpresas da vida, não há lugar para um ego destemperado. Mas sim um solo fértil para a harmonia entre o sentimento e a razão. Essa harmonia aparece no respeito pela natureza, na admiração pelas relações equânimes e na confiança do diálogo aberto.

Nosso mundo precisa de mais aconchego e de mais empatia entre os homens, e acredito que o tempo que estamos juntos aqui na Terra é o tempo que nos foi dado para exercitarmos a compaixão, a amizade e a gentileza.

Nossa vida é um instante, tão fugaz e tão pequenino perto da magnitude do universo, mas é tudo o que temos, e a sequência desses minúsculos espaços de tempo são as histórias das nossas vidas. Podemos fazer desses vários instantes uma trama harmoniosa e de uma beleza sincera, para assim estarmos um pouco mais perto dos nossos corações.DSC_4561

Fotografias © Graziela Gilioli, Butão, Paro

Artigo originalmente publicado na Revista Nowmastê, em fevereiro de 2016

 

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